O luto de um amor perdido

O Luto de um amor
por Adriana Thomaz

Por ocasião do convite feito pela Globonews para um debate a se realizar amanhã, iniciei uma reflexão e aqui estão os pensamentos tornados texto e compartilhados com vocês.
Toda perda pressupõe um luto e aqui não seria diferente. Por separação, nem sempre um luto reconhecido, ou por morte, chamada viuvez cujo luto é validado, reconhecido, as duas podem doer por muito tempo. A diferença do processo não é óbvia, contanto, uma vez que o luto depende do vínculo estabelecido e não é porque foi por morte que tal vínculo foi maior. O que quero dizer nesta consideração inicial é que o luto pela morte não é sempre maior ou mais difícil que o luto pela separação de um amor. Aqui, na separação, a perda é carregada de sentimentos de frustração de um projeto, a perda de um sonho, a perda do papel realizado anteriormente, do status quo, para não dizer da família, da convivência com os filhos, dos amigos, do padrão de vida. E dá saudade. Saudade de muitas coisas, até da aliança, muitas vezes objeto permanente nos dedos daquele que perdeu seu amor, vivo ou morto, como vi explícito no cantor Seal, em entrevista a um talk show americano no inicio deste ano. Ele gagueja, se emociona, faz pausas e finalmente responde a pergunta que não queria calar na boca da entrevistadora: E esta aliança no seu dedo, o que significa? Com muita clareza e não menos emoção, Seal diz que significa o que ele sente… o processo do luto é lento e precisa ser respeitado. “Eu me sinto bem assim. Não sei por quanto tempo vou usa-lá, mas ainda me sinto bem com essa aliança no meu dedo.” É preciso respeitar o processo do luto, fechar para balanço.
David Sbarra, pesquisador da Universidade do Arizona, realizou um estudo com 105 pessoas separadas em torno de 40 anos, todas casadas por 13 anos que após três meses do divórcio foram convidadas a pensar no ex cônjuge por 30 segundos e depois falar por seus sentimentos e relação a separação, o que se repetiu depois de 6 ou 9 meses. Os resultados mostram que as pessoas que apresentavam níveis mais satisfatórios em termos de “superação”, eram aquelas que tinham mais “auto-compaixão” traduzida por ele como a combinação de bondade amorosa para consigo, compreensão de que a perda faz parte da vida de todas as pessoas e a habilidade em lidar com as emoções dolorosas (ao que eu chamo resiliência). Desta forma, conclui o autor, o que faz a diferença é a ” postura” diante da experiência da perda. Ainda refletindo sobre pesquisas no tema do luto pós separação ou divórcio, trago o estudo tornado livro, indiciado em 1971 e publicado em 1988 intitulado “Segundas Chances”, das britânicas Judith Wallerstein e Sandra Blakeslee, que descreve o impacto da ruptura dos casamentos no indivíduo e na estrutura social e que foi realizado com 60 casais e seus filhos após uma década da separação. As  duas principais conclusões são: a primeira, que embora seja uma crise nas vidas pessoais dos envolvidos, com ameaça a sensação de bem estar (características do luto propriamente dito, eu diria),  ainda assim o divórcio pode abrir possibilidades para o desenvolvimento pessoal e trazer perspectivas futuras de felicidade e, a segunda, que o luto é estabelecido mesmo diante de uma separação por um casamento infeliz. E quando digo e repito, muitas vezes até insistentemente, que o luto tem um enorme potencial transformador de vidas, e que durante o seu processo, o enlutado é quem torneia e é torneado, é que foco nessa possibilidade de desenvolvimento pessoal de que falam Judith e Sandra. Auto-estima, auto-confiança, auto-compaixão, uma a uma, ou as três juntas, de preferência, são a chave para o restabelecimento de uma vida, para o reinvestimento do afeto, para o “seguir em frente” e o “conferir sentido a perda”, como diz John Bowlby, psiquiatra e psicanalista inglês que considera como tarefas do luto “reconhecer e aceitar a realidade” e “lidar com os problemas que advêm da experiência da perda, permitindo que a pessoa se reorganize sem a presença do objeto perdido.”
Cabe aqui, pelo tardar da hora, apenas uma consideração a ser desenvolvida em textos próximos, que é a grande armadilha “morre vira santo”, que tanto dificulta o desenvolvimento de uma nova relação com a pessoa perdida, que deve ser baseada em memórias e em experiências vividas da forma mais realística e coerente para que se torne possível e reconfortante, o que chamo de manutenção do vínculo ou vínculo continuo.
Ainda para próximas elocubraçōes, como carinhosamente dizia meu pai, o velho, João Pupo, sobre o luto do casamento desfeito, deixo o antigo o ditado polonês, ressuscitado no novo livro da autora de Comer, Rezar e Amar,  Liz Gilbert: “Antes de ir pra guerra, reze uma oração, antes de ir para o mar, duas e antes de se casar, reze três orações.”
E finalizo com a frase de Colin Parkes, médico e estudioso do Luto, “o luto pela perda é o preço que se paga por amar.” E eu afirmo com base na minha experiência pessoal, querido leitor: vale a pena.

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Sobre adrianathomaz

Na vida: autenticidade e coerência íntima, amor, muito amor, fé e fotografia! Educação para a morte e o morrer. Terapia do Luto, Dor e Medicina Paliativa.
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9 respostas para O luto de um amor perdido

  1. Carolina disse:

    Olá! Estou assistindo ao programa Estudo I e tenho certeza que esse programa foi dedicado a mim, mesmo sem que a Maria e todos os participantes saibam. É mais uma dessas coincidências da vida e, dessa vez, pra minha sorte. Porque, descobri que o que estou sentindo é algo normal ou pelo menos algo que já foi vivido e sentido por outras tantas pessoas.
    Namorei 2 anos e meio. Ele rompeu comigo há exatos 8 meses e ainda assim não consigo esquecer. Sofro muito. Tenho sofrido demais, até. Não aguento mais os conselhos da minha mãe, a insistência dela em dizer que preciso “virar a página”, “seguir em frente”. Eu já sei de tudo isso, mas não consigo! Tenho chorado, não me encontrado, insistido comigo mesma que há outros caminhos, que é possível, buscado coisas pra fazer, mergulhado em projetos, mas nada me faz feliz de fato como eu era com ele ou naquele relacionamento. Nada faz meus olhos brilharem. Eu preciso de ajuda! Vi a Dra. Adriana Thomaz falando tantas coisas que se encaixam na minha situação que me acolheram, gostaria de entrar em contato com ela. Eu preciso de um rumo certo.

    • adriana thomaz disse:

      Olá Carolina,

      Muitas vezes as coisas acontecem e parecem feitas para nós, né? Eu chamo isso de sincronicidade.

      Te respondi com meus contatos por email.

      Todo o meu carinho e um abraço forte e demorado,

      Adriana

  2. fabricia disse:

    acompanhei a entrevista na globonews!e acabam dando ‘dicas” visíveis e práticas, mas pra que esta passando por esta situação a pessoa se torna tão vulnerável ao mundo que tudo esta mais difícil, digo que só de eu ver a entrevista, ja me deu um up, uma vontade de mudar, e de permitir a mudança!!criei coragem e marquei consulta com psiquiatra, preciso de ajuda, é uma fase mto difícil e nao posso ser egoista de achar que consigo sozinha!!!

  3. NEUSA COUTO RIAL disse:

    Estou de luto, separação de 40 anos casamento. Sua colocação me ajudou imensamente, no studiu i. senti coerencia e a maneira como colocou varias situações de luto me fizeram reagir. agradecida precisava ouvir, Receba meu agradecimento NEUSA .

    • adriana thomaz disse:

      Oi Neusa,

      Mei amor e muita energia para você passar esse processo de resignificação que marca o luto.

      Te desejo força (não estou dizendo “seja forte”, ok?),

      Abraço carinhoso,

      Adriana

  4. Muito bacana!!! São as palavras que digo. Foi de extrema valia para muitos os tópicos levantados por você e pela conversa que fluiu. Muita ajuda e sinceridade para tantos que tiveram a oportunidade de apreciar o programa dessa tarde. Que permaneça muito tempo ainda disponível on-line para os que ainda não viram.

    Um abraço apertado.
    Parabéns!!

    Rodrigo Zambrano

    • adriana thomaz disse:

      Meu querido amor,

      Sem voce nada disso seria possível. Minha eterna gratidão e reconhecimento por todo o seu apoio.

      Outro abraço bem apertado,

      Adriana

  5. NEUSA RIAL disse:

    O ERRO SE ASSIM POSSO CHAMAR É COLOCAR NOSSA FELICIDADE NA DEPENDENCIA DO OUTRO,E NADA SE PERDE AQUILO QUE NUNCA É DE NINGUEM! O ACEITAR VAI DEPENDER DA EXPECTATIVA QUE ESPERAVA, DAI O SOFRER. SÃO MEUS EQUIVOCOS.GRATA.

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