O luto patológico (disfuncional) e o stress pós-traumático em crianças e adolescentes

Apesar de parecer impossível, o que se observa na clínica diária, é que algumas crianças e adolescentes, vítimas da violência urbana e que, inclusive, presenciam a morte de um dos pais, se adaptam e se recuperam de maneira surpreendente, apesar da experiência pela qual passaram. Existe uma variedade enorme de respostas emocionais aos eventos traumáticos que acometem crianças e adolescentes. Vários autores, como Froma Walsh, referem a existência de uma personalidade mais imune às vivências traumáticas (personalidade resiliente) ao mesmo tempo que questiona-se se o apoio social e familiar seria o fator decisivo para essas crianças se recuperarem, impedindo assim uma conseqüência patológica do trauma a que foram expostas. A terapia do Luto, neste contexto, funcionaria como um dos fatores para o controle ou a tentativa de evitar conseqüências emocionais do tipo Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Depressãoe quadros Fóbico-Ansiosos. A terapia do Luto bem conduzida age como um fator protetor e estimulador do processo natural que algumas pessoas têm (a resiliência) ou como um alerta e uma intervenção pontual para situações mais graves reacionais que, algumas vezes,  faz-se  necessário, inclusive, o uso de medicação, como por exemplo, anti-depressivos ou ansiolíticos. Em adolescentes (inclua-se aqui os pré-adolescentes), podemos encontrar alterações comportamentais, tais como isolamento social, rebeldia, constrangimento social e ideação suicida. Seja pela Depressão, seja pelo próprio Transtorno por Estresse Pós-Traumático, as perspectivas de vida podem desaparecer em curto prazo. Depois da experiência traumática, a criança ou adolescente com Transtorno por Estresse Pós-Traumático geralmente mantém um nível de hiperatividade e hipervigilância crônicas, com reação exagerada aos estímulos (sobressaltos, sustos) e descontrole emocional, tendendo ora à irritabilidade, ora ao choro ou ainda ao desenvolvimento da Alexitimia, que significa uma dissociação de sentimentos. Lembranças indesejadas e pesadelos aparecem em mais da metade dos pacientes, diminuindo ou não com o passar do tempo. Também pode haver, com menos frequência, a “re-experimentação” das emoções, como se o fato estivesse ocorrendo de novo. Comportamentos de evitação de atividades antes prazerosas, evitação de lugares ou pessoas relacionadas com o acontecimento traumático, também são comuns, assim como conversas e pensamentos que possam recordar a situação traumática. O contrário é verdadeiro, alguns adolescentes e crianças “precisam” falar do evento, causando desgaste nos familiares e na “escola” que, para “protegê-los” (e se proteger ao mesmo tempo) podem adotar condutas distorcidas como “tentar distrair a criança e falar de outras coisas”. Desta forma, o espaço reservado à terapia se mostra um local seguro para falar do evento traumático sem que a criança fantasie que “tudo vai acontecer de novo”, situação também comum nos casos de Luto traumático (ou disfuncional ou patológico). Nestes casos, o papel do terapeuta é também de “educador” para a morte, agindo diretamente junto à família e à escola através de reuniões para otimização e uniformização da conduta quando necessário(todos – terapeuta, família e escola – precisam “falar a mesma língua”).

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Sobre adrianathomaz

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Uma resposta para O luto patológico (disfuncional) e o stress pós-traumático em crianças e adolescentes

  1. Carlos Barros disse:

    Parabéns pelo seu blog e pelo excelente conteúdo que, por sinal, ainda é tabu em nossa sociedade. Sou professor de uma disciplina chamada Tanatologia, e vejo as resistências psicológicas em torno desse tema. De todo, continue assim. Carlos

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