Entrevista concedida a UOL, na íntegra.

 

1-O que é a terapia do luto?

O termo ‘Terapia do Luto” é muito pouco abrangente. Trata-se do cuidado oferecido aquela pessoa que sofreu uma perda significativa, por morte ou não. O luto é uma fase de transição, sendo a terapia, portanto, uma abordagem comportamental, breve e focal, centrada na pessoa e na resignificação da sua vida. Quando iniciada logo após a morte, nos dias que precedem ou se seguem ao funeral, é também um tipo de aconselhamento para as tarefas básicas como ir ou não ao velório, ver ou não o corpo, levar ou não crianças ao enterro (e o que dizer a elas) participar ou não dos rituais religiosos, voltar ou não para sua casa e o que fazer com os pertences do seu ente querido. O enlutado tem uma tarefa difícil e sofrida para realizar. A terapia facilita o reconhecimento dessas tarefas que não podem ser evitadas nem apressadas, permitindo que o enlutado se organize para elaborar a perda, assim como estabeleça sua rede de apoio e busque seu “sagrado”, sua espiritualidade (religiosa ou não). É um espaço seguro onde a pessoa se sente apoiada para expressar sua tristeza, sua revolta, ou qualquer tipo de sentimento e pensamento sobre a morte e o morrer, sem medo. Aqui ela deixa de lado aquela máscara de fortaleza que acompanha frases como “meu filho não tem mais o pai, ele precisa de mim bem forte e firme ao lado dele, não vou demonstrar fraqueza” “Não posso chorar. Meus pais são idosos e não agüentariam me ver assim” ou ainda “meu filho não iria gostar de me ver chorar, vou atrapalhar seu caminho”. Outra função da terapia é reassegurar o enlutado que ele não “esta ficando louco” porque experimenta sentimentos novos, desconhecidos e até contraditórios como, por exemplo, uma viúva que perde o marido que apresentava demência há anos, e se sente aliviada com sua morte apesar de profundamente triste. E ainda, esclarecer  que se uma filha que passa a sentir as mesmas dores físicas que a mãe falecida, por exemplo, isso pode ser natural e passageiro, assim como alguns sintomas físicos como insônia, ansiedade e tristeza profunda. Na terapia ha também o foco na família e a preocupação em explicar que cada um tem sua maneira de expressar o luto e não há “certo e errado”.2-Há quanto tempo a senhora trabalha aplicando esse tipo de terapia?

Há cerca de 10 anos me dedico ao estudo das questões ligadas a morte e ao morrer, inclusive no contexto hospitalar como criadora de um grupo voluntário, o GIRASoHL, mas em consultório, atendo terapia do luto há 6 anos.

 3-Existem estudos feitos em sua clínica mesmo ou em outra sobre quantos pacientes já atendeu e a melhora deles?

Sim, várias pesquisas mostram resultados positivos e o tema é objeto de estudo há muitos anos, sendo expressivo na Inglaterra. Em 2005 tive a oportunidade de conhecer o Dr. Colin Parkes, medico inglês, responsável por vários destes estudos. Em seu livro “Luto”,  Dr. Parkes cita Raphael (1997), que mostrou que se ha a percepção de uma família não solidaria, isto é um dos indicadores mais fortes de maus resultados na elaboração do luto e um dos melhores preditores de bons resultados após o aconselhamento especializado. Outra pesquisa (Rosemblatt et al., 1991), mostra que conflitos na família são constantes e que estavam relacionados a falta de apoio, a “invasão”, as acusações de que estavam “pouco ou muito enlutados”, as percepções conflitantes sobre a pessoa morta, as atitudes e aos comportamentos ainda em vida e a redistribuição de papeis e responsabilidades familiares. Pennebaker ET AL. (1988) mostra que as pessoas tem necessidade de expressar seus sentimentos e pensamentos sobre a perda, o que nem sempre é possível em nossa sociedade.

4- O tratamento consiste em quantas sessões por semana? como a senhora diagnostica isso? Seria na primeira entrevista com o paciente?

Cada pessoa é uma pessoa, cada luto é um luto. No primeiro mês pode variar de 1 a duas vezes por semana e a partir do 6o. mês, a cada 15 dias.

5-É caro esse tipo de terapia? existem programas de ajuda entre pessoas que perderam entes queridos?

O valor é semelhante ao de uma consulta com um psicólogo ou médico e sim, existem programas como o LeLu, da PUC de São Paulo.

6- Como uma pessoa em outro estado pode procurar esse tipo de ajuda? Existem muitos especialistas no Brasil hoje?

Não, não existem muitos profissionais especializados no assunto no Brasil, estando a maioria concentrada em São Paulo.

7- No que sua especialização se diferencia de uma terapeuta comum?

No meu caso, sou uma terapeuta médica, oferecendo a possibilidade de tratamento farmacológico quando imperativo, com a participação de um psiquiatra quando necessário, o que é raro, uma vez que procuro não medicalizar a tristeza, reservando a medicação para casos específicos.

8- Em média um paciente leva quanto tempo para melhorar?

Depende de cada um, aqueles pacientes cuja resiliência é forte, levam menos tempo, mas a media seria de 3 a 6 meses.

9- Por que essa especialização só teve mais popularidade depois do caso de Cissa?

Pode ter sido pela enorme expressão na mídia da morte do Rafael (Mascarenhas) que comoveu tanto nossa sociedade por tratar-se de um jovem muito querido, no auge de sua vida e carreira (Rafael foi um músico incrível) e por ser filho de uma atriz também muito querida e amada, um verdadeiro ícone da alegria e da descontração.

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Sobre adrianathomaz

Na vida: autenticidade e coerência íntima, amor, muito amor, fé e fotografia! Educação para a morte e o morrer. Terapia do Luto, Dor e Medicina Paliativa.
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2 respostas para Entrevista concedida a UOL, na íntegra.

  1. Graziela Dineck disse:

    Oi Dra.!! Adorei ler a entrevista, se tiveres mais coisas pode me enviar. Me ajudará muito. Muito obrigada!! Adoraria conversar pessoalmente com você, mas como sou do Rio grande do Sul, no momento fica difícil por causa do meu bebê.
    Muita luz e abraços!! graziela

  2. Oi Dri, a cerca de seis meses venho desenvolvendo um trabalho com grupos de enlutados. Estou com um grupo em andamento e outro iniciando, e muitas idéias para ampliar esse acolhimento. A Terapia do Luto não é muito conhecida nem oferecida aqui no interior de São Paulo onde estou. A procura aumenta a cada dia e espero conseguir disseminar esse trabalho com o intuito de ajudar o maior numero possível de pessoas.
    Você é um referência importante no meu trabalho e um exemplo como ser humano e como profissional na minha vida.
    Um grande beijo!
    Taisa

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