Luto Coletivo – 11 de setembro de 2001 – 10 anos após.

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Reflexões para a entrevista de 8 de setembro de 2011, na Globo News, Jornal das 16h.

Carla Ross, especialista em luto de Raleigh, Carolina do Norte, alega que muitos americanos estão ainda “ativamente enlutados” pelo 11/09. 
”Há duas coisas que tornam este luto (coletivo) muito complicado para as pessoas”, disse Ross, professora de comunicação na Meredith College. “As pessoas não sabem a quem perdoar. Eles não sabem como deixar ir. E no lugar de elaborar o luto e “deixar ir”, estamos culpando toda uma cultura de pessoas. As pessoas estão realmente “lutando com isso.”

Brad Fetty, bombeiro de 34 anos ainda em treinamento, conversando com  uma motorista de ônibus escolar, diz que o Memorial de sua cidade evoca emoções complicadas e muitas perguntas sobre esse dia. Esta conversa acontece há quilômetros de NYC, em Hilliard, interior do estado de Colombo, onde nenhum dos 28.000 moradores morreram no 11 de setembro. Enquanto olha para as vigas de aço retorcido e enferrujado, ele se pergunta, “O que estou olhando? Havia sangue, estavam lá as lágrimas, de verdade, neste pedaço de metal?”
 O Prefeito Don Schonhardt foi mais um dos enlutados (deste luto coletivo a que me refiro neste artigo) que foi pedir as autoridades de NYC pedaços de aço do WTC para erguer um Memorial no centro da sua cidade.

“Sentimos que era importante sermos uma comunidade no meio da América, que diria para americanos e para todos os povos do mundo “ Eu me lembro do que aconteceu naquele dia”, disse Schonhardt.

O memorial ocupa um quarteirão no centro da Cidade, com seus dois pedaços de trilhos do metrô enferrujados, que passavam por baixo do World Trade Center, e outros dois grandes pedaços de metal retorcidos das torres em si.

A professora Ross pensa que sociedades que sofreram tragédias grandes realmente nunca “fecham” seus lutos, mas que o luto se torna mais suave, menos “espinhoso”. 
Normalmente quando as pessoas vivem o processo do luto até o fim, ou seja, completam esse ciclo, elas começam a encontrar sentido em como esta perda pode ter afetado suas vidas de alguma forma positiva, em termos de re-significação (tamanho é o potencial transformador de vidas que tem o luto).

Como outras cidades, Las Vegas mantêm um Memorial permanente da Estátua da Liberdade com uma exposição rotativa de itens que foram deixados no cassino dias após os ataques em NYC. Recentemente, cerca de uma dúzia de camisas dos bombeiros e da polícia que trabalharam nos resgates estavam em exposição, iluminadas a noite, assim como centenas de outros itens estão arquivados e armazenados na Universidade de Nevada, Las Vegas. Em uma cidade de excessos e fantasia, o Memorial – que está do outro lado da rua do MGM Grand Casino e sua estátua de leão de ouro e de Excalibur, um salão de jogos com temática medieval – existe uma lembrança sóbria da realidade, e os visitantes param e observam atentamente durante a caminhada de um cassino ao próximo.

Karl Glessner tem 60 anos de idade e é um voluntário “Embaixador” no Memorial do Vôo 93 em Shanksville. Passa dias inteiros na área de visitação pública, com vista para o campo onde 40 pessoas a bordo do avião morreram, e explica o que viu e ouviu naquele dia, dizendo as pessoas como sentiu o chão tremer viu uma nuvem de fumaça partindo do acidente. Às vezes ainda engasga quando fala sobre o dia. Falando a uma centena de pessoas por dia, diz que tudo isso tornou-o “Uma Pessoa Melhor. “Esta é basicamente a melhor coisa que eu faço”, acrescentou.

Schonhardt diz que ficou motivado para a construção do memorial em Hilliard depois de falar sobre o 11 de setembro nas escolas locais e perceber que alguns dos alunos da segunda série não eram nem nascidos quando os ataques aconteceram. “Ele foi projetado para ajudar a crianças da comunidade a entender o que aconteceu” (…) “este parque ajuda a colocar a coisa toda em perspectiva e penso que este fato é um dos que nos fazem perder a inocência profundamente e que não queremos esquecer.”

Quando perguntado se os americanos nunca fechariam o luto do 11 de setembro, Schonhardt faz uma pausa. “Espero que não” (…) “eu acho que é importante lembrarmos o sacrifício e a forma como este dia mudou nossas vidas e se pararmos esse processo de luto e seguirmos em frente, haverá uma tendência ao esquecimento.”

“O resto do país ainda está tentando compreender o significado destas coisas, tentando dar sentido a elas”, disse Baick. “O resto do país, que não foi tão afetado por 11/09, ainda está emocionalmente comprometido com isso.”

Os nova-iorquinos

“Não há lugar como Nova York”, diz um construtor que trabalha na construção do Memorial do Marco Zero. “Nós caímos e demos a volta por cima. Isso é o que somos.” Bonilla acredita que seus filhos – agora com 2 e 6 anos – terão orgulho de sua parte em tudo isso. Um dia. Logo eles perceberão que os edifícios à sua volta – as estruturas maciças – não estiveram lá para sempre. Eles subiram – e caíram. Quando crescerem, 11/09 será uma “lição de vida” para eles, diz ele. “Meus filhos não vão crescer com uma falsa sensação de segurança, pensando que eles são imunes à violência no mundo.” A história dos ataques, e a história do edifício que seu pai ajudou a levantar, vão ensinar-lhes uma outra lição, ele diz: “Não fique para baixo, dê a volta por cima quando as coisas ficarem difíceis.”

O exemplo deste operário é o que entende-se por “conferir sentido” a uma perda.

Com tantos corpos não recuperados, alguns ainda vêem este lugar como um cemitério. Mas, para Bonilla, parece diferente. “Aqui, de um lado, os caras se sentam e descansam durante a sua pausa para o almoço, enquanto a pessoas trabalham nas empresas por perto. Lá, um homem de chapéu, um outro trabalhador, apontam os diferentes edifícios enquanto algumas pessoas de fora da cidade vêm a este lugar para chorar.” Há também a Torre da Liberdade (a Torre Um), ele diz, apontando o dedo para o alto.

E aqui está Bonilla, com os braços endurecidos na sujeira do local, falando rápido sobre maneira como ele diz que funciona o luto coletivo dos nova-iorquinos. “Eu acho que o período de luto já passou”, diz ele. “Nós estamos olhando para o futuro.”

Uma década depois, os nova-iorquinos não estão mais atordoados, disse John Baick, um professor de história na Universidade Western New England, em Springfield, Massachusetts.

“Nova York se levantou muito mais rápido que qualquer um esperava”, disse Baick, que também é um historiador da cidade de Nova York. “Os nova-iorquinos são melhores em compartimentar. Nenhum outro lugar do mundo existe esse tipo de tensão, diversidade e estranheza. Nova-iorquinos se adaptam e ajustam numa rapidez impressionante.”

Enquanto a cidade de Nova York projetou-se para cima, o resto do país lamentou – então chorou novamente quando soldados morreram nas guerras no Afeganistão e no Iraque. E lamentou mais uma vez quando o mercado imobiliário entrou em colapso e quando a Grande Recessão começou.

“Talvez em Nova York, eles possam ver um fênix saindo das cinzas”, disse Tony Brunello, professor de ciência política na Eckerd College, em St. Petersburg, na Flórida “Mas para as pessoas aqui de fora, NYC é um mundo de medo, com nenhuma evidência da recuperação.”

Nova-iorquinos não foram poupados das dificuldades da recessão e das guerras. Mas sua moral pode ser maior uma década após 9 / 11, porque eles vêem evidências de progresso e realização no marco zero, como dizem Brunello e Baick, enquanto as pessoas em lugares como a Flórida, Arizona, Nevada e diversos outros estados dos EUA, sentiram uma cadeia de eventos cada vez piores ao longo da última década, sem fim à vista.

Nota: Este artigo é fruto de diversas pesquisas, mas baseia-se, principalmente, no trabalho da jornalista Tamara Lush: A decade, and counting, of publicly mourning 9/11 – Published: Saturday, July 09, 2011; Last Updated: Sat. Jul 9, 2011, 10:23am.

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