“Extremely Loud Incredibly Close”

Artigo sobre o filme “Extremely Loud Incredibly Close”

Há cerca de três semanas, sugeri ao meu querido Rodrigo Luz (www.quandoavidadizadeus.com.br), estudioso das questões que envolvem a morte, que tecesse comentários sobre este filme, que considero muito esclarecedor no que tange ao luto, especialmente o luto por morte violenta, com alto risco de se transformar num luto disfuncional. Deste pedido, surgiu o artigo que se segue. Parabéns, Rodrigo e espero que gostem. Eu gostei.

Com carinho,

Adriana

 por Rodrigo Luz

“Com o título brasileiro “Tão forte e Tão perto” (2011, Warner Bros. USA. 129 minutos), Extremely loud Incredibly close explora questões de relevância acerca do luto infantil complicado e dos fatores de risco para o luto complicado. Sobremaneira, as circunstâncias da morte de Thomas Schell (interpretado por Tom Hanks), as reações de procura e entorpecimento de Oskar Schell (interpretado por Thomas Horn) e a lacuna existente na comunicação do menino Oskar com sua mãe, Linda Schell (interpretada por Sandra Bullock), foram fatores de risco que estiveram presentes durante o desenrolar da história.

Em seus 11 anos, Oskar perde seu pai no genocídio do dia 11 de setembro de 2001, quando aviões são lançados contra os dois maiores prédios da história dos Estados Unidos. Destaca-se a maneira como Oskar tomou conhecimento da morte do seu pai, com mensagens em uma secretária eletrônica e a visão de desmoronamento do prédio, após o choque com o avião. A voz do seu pai e os seus últimos momentos de vida foram, ambos, registrados no aparelho eletrônico, podendo ser percebida a sua ansiedade diante da morte iminente, com sua respiração ofegante e seu desejo ardente de comunicar-se com seu filho e sua esposa.

Sozinho, Oskar ouve as gravações com a voz de seu pai, sem, contudo, compartilhar a experiência com ninguém. Sua reação de choque e estupefação pôde ser notada logo no momento em que ele começa a ouvir as mensagens do seu pai, atingindo seu cume com a queda das Torres Gêmeas, quando ele também cai e vai ao chão. Parkes (1998, pp. 53) fala das situações “especialmente assustadoras”, comentando que qualquer situação desconhecida ou imprevisível é, em potencial, causadora de alarme. O período que se segue ao alarme inicial, somando-se o choque e a estupefação, é o de entorpecimento. Durante esse período, o menino calou-se, em seu próprio sofrimento, sem que ninguém ou nada pudesse acessá-lo. Sofreu em silêncio, embaixo de um sofá, sem ninguém para compartilhar com ele as emoções do pesar. Repentes de sofrimento extremo ocorreram com o passar do tempo.

Outra fase percebida foi a da busca, sem contar a fase da raiva e a da negação. Os antecedentes determinantes do resultado do luto de Oskar podem ser analisados conforme critérios estabelecidos por Parkes, em 1998. Escolhemos esse referencial teórico porque o julgamos mais completo e mais abrangente. Em 1998, Parkes admite:

[…] os papéis, os planos e o repertório de soluções de problemas de uma pessoa dependem da presença da outra para sua importância e execução. Assim sendo, quanto maior a área ocupada por A no espaço vital de B, maior será a ruptura resultante da partida de A.

Ainda segundo Parkes, os determinantes do resultado do luto são variados, a saber: a relação do enlutado com o morto (no caso, filho único e pai) a segurança do apego, o grau de confiança, o envolvimento, a idade, o gênero, etc. Assim, destaca-se, no caso assinalado, o fator da imprevisibilidade, já que os desastres, em geral, não podem ser previstos. Há uma diferença significativa entre a morte do idoso cronicamente adoecido, como um apagar das chamas de uma vela, e a morte trágica e repentina de um membro da família, mesmo que tal membro esteja na velhice. Além disso, outro fator não menos importante é a idade do menino. Parkes (1998) cita o estudo de Raphael, de 1984, a saber:

Há, portanto, muitos fatores estressores enfrentados pela criança que perde alguém com quem tem fortes vínculos de apego. A morte, em si, causa desorganização e, com frequência, é assustadora para a criança. A ameaça á continuidade da vida familiar provoca maior insegurança. No entanto, com apoio adequado do pai ou da mãe sobrevivente, ou de outros parentes, poderá enfrentar o trauma. Sua vida e seu desenvolvimento dentro da família continuação.

Os problemas devidos ao luto infantil complicado podem emergir devido à dificuldade de falar sobre a morte, quando ela sequer pode ser mencionada, se há o sentimento de culpa na intimidade da família, se a expressão do calor e da afetividade é comprometida, se há fingimento de que as coisas podem seguir como se nada tivesse acontecido ou, ao contrário, se há completa desorganização e sensação de caos absoluto. Em todos esses casos, é necessária a intervenção responsável e eticamente viável de alguém tecnicamente preparado para esse fim, com especial destaque para os profissionais da saúde e os terapeutas do luto.

Além disso, o tipo da morte também é determinante no luto. Mortes violentas e inesperadas envolvendo a ação humana representam um risco especial para a saúde mental dos sobreviventes. As pessoas que sofreram perdas precoces ou inesperadas, sobretudo, geralmente são envolvidas com lembranças do morto e, se a morte tiver sido testemunhada pelo enlutado, as lembranças serão muito dolorosas – de acordo com os critérios do Distúrbio de Estresse Pós-Traumático (Parkes, 1998).

No filme em questão, o menino Oskar ouve a voz do pai através do registro de voz, assim como ouve e vê o atentado terrorista na televisão. A impressão de ver e ouvir os suspiros e clamores do pai aproxima o menino da condição de testemunha virtual do caso. Ouviu e “viu” as circunstâncias em que o próprio pai morreu, sem que nada pudesse fazer para mudar as ocorrências e transformar o desfecho da trajetória. Seu sentimento de culpa por não ter atendido ao telefonema do pai, antes da queda do prédio, se mistura ao fato de que, em vida, seu pai lhe dizia para nunca deixar de procurar por seus objetivos até encontrá-los. Sugere-se que, ao procurar por um bairro inexistente, o menino está mesmo procurando por seu pai morto. E sua busca se estende por quase todo o filme.

Kübler-Ross (1997) adverte, com respeito às crianças portadoras de doenças progressivas e incuráveis:

El[a]s são cientes dos seus medos e dos seus horrores, suas noites em claro e das suas preocupações e você não pode esconder isso del[a]s. Não entre no quarto de hospital com um falso sorriso de alegria. Crianças não podem ser enganadas. Não minta para elas dizendo que você fatiou algumas cebolas. Quantas cebolas você vai cortar? Diga a elas que você está triste e algumas vezes pensa ser tão inútil que sente não poder ajudar mais. Eles vão prendê-lo nos seus bracinhos e se sentirão bem por poder ajudá-lo através do compartilhamento de carinho. Compartilhar a tristeza é muito mais fácil de suportar do que deixá-las com o sentimento de culpa e de medo de que elas sejam a causa de toda a sua ansiedade.[1]

Nesse mesmo sentido, pensamos que, seja em casos de terminalidade por uma doença progressiva e incurável, seja em casos de mortes inesperadas e luto no pós-óbito, a comunicação, a manifestação do pesar e o compartilhamento da tristeza é altamente favorável à elaboração do luto.

Sua mãe Linda, por sua vez, vive um luto silencioso. Passado um ano, ela ainda não havia sentado e compartilhado suas emoções com o seu filho. Não havia compartilhado a tristeza e o pesar, o medo e a dor de perder um membro tão significativo para a família, um eixo econômico e uma fonte de segurança parental. No final do filme, a dignidade do propósito da vida e o senso de significado são renovados, encontrando novas possibilidades de viver e existir, diante de uma nova realidade, adaptadas ao novo contexto familiar.

Restariam as diversas análises a serem feitas, sob os mais diferentes enfoques, a saber: o luto da avó, o luto do pai ausente, os fatores de risco devidos aos aspectos culturais, etc.

Mas, nos deteremos, por opção, nas diversas nuanças do luto infantil complicado, objeto central da nossa análise. Esperamos que, em matéria de indicação, o filme possa trazer diversas reflexões a todos, sobretudo àqueles que cuidam de crianças em situações de orfandade.

Bom filme a todos.”

[1] On Children And Death é um livro não traduzido para a língua portuguesa da psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross. O autor desse trabalho fez a tradução livre desse trecho específico, com vistas, exclusivamente, à divulgação acadêmica.

Anúncios

Sobre adrianathomaz

Na vida: autenticidade e coerência íntima, amor, muito amor, fé e fotografia! Educação para a morte e o morrer. Terapia do Luto, Dor e Medicina Paliativa.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para “Extremely Loud Incredibly Close”

  1. CLAUDIA GHAZI disse:

    Olá,DRA.ADRIANA,SOU A CLAUDIA GHAZI,MÃE DO VICTOR GHAZI,QUE FALECEU DE CANCER EM DEZEMBRO DE 2011,PACIENTE DO DR.DANIEL TABAK.
    NÃO TENHO PODIDO IR CONVERSAR COM VOCE MAS SINTO A SUA FALTA,SEI QUE PODERIA ESTAR ME AJUDANDO MUITISSIMO!ESTOU CAMIUNHANDO…DEVAGAR MAS SEM TANTO SOFRIMENTO!FUI ALGUMAS VEZES NO CONSULTORIO DO DR.DANIL E CONVERSAR COM VOCE…MAS NÃO DEU MAIS PRA IR!LAMENTO MUUUITTTO!ADORO SEUS POSTS,COMENTARIOS!ABRAÇO CARINHOSO!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s