Entrevista Estudio i Globo News 01/06/2012

Aqui o primeiro bloco da entrevista concedida a Maria Beltrão sobre o luto de um amor perdido, o luto da separação, cujo tema me inspirou a escrever o texto compartilhado no fim deste post. Em breve, o programa na íntegra.

Meu carinho a cada um que, como eu, um dia perdeu o seu amor (e um beijinho, Eduardo Lamas de Mendonça, um dos grandes amores da minha vida…)

E deixo aqui também minha homenagem a duas pessoas lindas que partiram dessa vida essa semana e que tive a honra de cuidar, a Anne e o Mauricio, que deixaram seus amores com saudade, os queridos Gustavo e Marcia, respectivamente. ( Os rituais de cremação da Anne, exatamente como ela decidiu que acontecessem, aconteciam por coincidência (?) ao mesmo tempo que o programa, e no final encontrei uma forma de mandar meu beijinho pra ela… e ao Mauricio, que também ganhou meu beijo no ar, prestarei minha homenagem amanhã, na sua missa de sétimo dia.)

Adriana

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O Luto de um amor perdido
por Adriana Thomaz

Por ocasião do convite feito pela Globonews para um debate a se realizar amanhã (foi hoje, 01/06/2012), iniciei uma reflexão e aqui estão os pensamentos tornados texto e compartilhados com vocês.

Toda perda pressupõe um luto e aqui não seria diferente. Por separação, nem sempre um luto reconhecido, ou por morte, chamada viuvez cujo luto é validado, reconhecido, as duas podem doer por muito tempo. A diferença do processo não é óbvia, contanto, uma vez que o luto depende do vínculo estabelecido e não é porque foi por morte que tal vínculo foi maior. O que quero dizer nesta consideração inicial é que o luto pela morte não é sempre maior ou mais difícil que o luto pela separação de um amor. Aqui, na separação, a perda é carregada de sentimentos de frustração de um projeto, a perda de um sonho, a perda do papel realizado anteriormente, do status quo, para não dizer da família, da convivência com os filhos, dos amigos, do padrão de vida. E dá saudade. Saudade de muitas coisas, até da aliança, muitas vezes objeto permanente nos dedos daquele que perdeu seu amor, vivo ou morto, como vi explícito no cantor Seal, em entrevista a um talk show americano no inicio deste ano. Ele gagueja, se emociona, faz pausas e finalmente responde a pergunta que não queria calar na boca da entrevistadora: E esta aliança no seu dedo, o que significa? Com muita clareza e não menos emoção, Seal diz que significa o que ele sente… o processo do luto é lento e precisa ser respeitado. “Eu me sinto bem assim. Não sei por quanto tempo vou usa-lá, mas ainda me sinto bem com essa aliança no meu dedo.” É preciso respeitar o processo do luto, fechar para balanço.
David Sbarra, pesquisador da Universidade do Arizona, realizou um estudo com 105 pessoas separadas em torno de 40 anos, todas casadas por 13 anos que após três meses do divórcio foram convidadas a pensar no ex cônjuge por 30 segundos e depois falar por 4 minutos a respeito de seus sentimentos e relação a separação, o que se repetiu depois de 6 ou 9 meses. Os resultados mostram que as pessoas que apresentavam níveis mais satisfatórios em termos de “superação”, eram aquelas que tinham mais “auto-compaixão” traduzida por ele como a combinação de bondade amorosa para consigo, compreensão de que a perda faz parte da vida de todas as pessoas e a habilidade em lidar com as emoções dolorosas (ao que eu chamo resiliência). Desta forma, conclui o autor, o que faz a diferença é a ” postura” diante da experiência da perda. Ainda refletindo sobre pesquisas no tema do luto pós separação ou divórcio, trago o estudo tornado livro, indiciado em 1971 e publicado em 1988 intitulado “Segundas Chances”, das britânicas Judith Wallerstein e Sandra Blakeslee, que descreve o impacto da ruptura dos casamentos no indivíduo e na estrutura social e que foi realizado com 60 casais e seus filhos após uma década da separação. As  duas principais conclusões são: a primeira, que embora seja uma crise nas vidas pessoais dos envolvidos, com ameaça a sensação de bem estar (características do luto propriamente dito, eu diria),  ainda assim o divórcio pode abrir possibilidades para o desenvolvimento pessoal e trazer perspectivas futuras de felicidade e, a segunda, que o luto é estabelecido mesmo diante de uma separação por um casamento infeliz. E quando digo e repito, muitas vezes até insistentemente, que o luto tem um enorme potencial transformador de vidas, e que durante o seu processo, o enlutado é quem torneia e é torneado, é que foco nessa possibilidade de desenvolvimento pessoal de que falam Judith e Sandra. Auto-estima, auto-confiança, auto-compaixão, uma a uma, ou as três juntas, de preferência, são a chave para o restabelecimento de uma vida, para o reinvestimento do afeto, para o “seguir em frente” e o “conferir sentido a perda”, como diz John Bowlby, psiquiatra e psicanalista inglês que considera como tarefas do luto “reconhecer e aceitar a realidade” e “lidar com os problemas que advêm da experiência da perda, permitindo que a pessoa se reorganize sem a presença do objeto perdido.”
Cabe aqui, pelo tardar da hora, apenas uma consideração a ser desenvolvida em textos próximos, que é a grande armadilha “morre vira santo”, que tanto dificulta o desenvolvimento de uma nova relação com a pessoa perdida, que deve ser baseada em memórias e em experiências vividas da forma mais realística e coerente para que se torne possível e reconfortante, o que chamo de manutenção do vínculo ou vínculo continuo.
Ainda para próximas elocubraçōes, como carinhosamente dizia meu pai, o velho, João Pupo, sobre o luto do casamento desfeito, deixo o antigo o ditado polonês, ressuscitado no novo livro da autora de Comer, Rezar e Amar,  Liz Gilbert: “Antes de ir pra guerra, reze uma oração, antes de ir para o mar, duas e antes de se casar, reze três orações.”
E finalizo com a frase de Colin Parkes, médico e estudioso do Luto, “o luto pela perda é o preço que se paga por amar.” E eu afirmo com base na minha experiência pessoal, querido leitor: vale a pena.

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Sobre adrianathomaz

Na vida: autenticidade e coerência íntima, amor, muito amor, fé e fotografia! Educação para a morte e o morrer. Terapia do Luto, Dor e Medicina Paliativa.
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4 respostas para Entrevista Estudio i Globo News 01/06/2012

  1. Maristela disse:

    Olá Adriana, Parabéns pela sua participação no Studio i hoje. Assisti e gostei muito da sua postura. Você realiza um trabalho muito importante. Poder conversar sobre a morte, a dor, a passagem dos ciclos é quase um tabu. Por que a sociedade prefere engolir a angústia e fazer de conta que nada disso faz parte da vida? Não se preocupe em responder, apenas pensei alto. Abs

    • adriana thomaz disse:

      Obrigada pelo carinho, Maristela!
      Sim, minha missão é quebrar esse tabu…
      Meu amor par voce,
      Adriana

      PS Aos que escreveram e não viram seus comentários publicados, peço a gentileza da paciência. Vou respondendo um a um, aqui ou por email.

  2. Rafaelton disse:

    Sabia q vc me ajudou muito pois recentemente eu recebi uma pessima noticia da mulher q eu amo,o relacionamento acabou e eu fiz aquelas loucuras de amor por nao aceitar o termino mas com a sua entrevista acabei entendendo melhor o que estou sentindo e aceitei o fato.Muito obrigado por tudo.

    • Adriana Thomaz disse:

      Que bom que pude te ajudar… receba meu carinho e muita energia para seguir em frente nesse momento difícil que é o luto de um amor. Seja fiel aos seus sentimentos e tenha paciência com eles. Essas loucuras por amor podem ser bastante custosas para ambas as partes. Seja gentil com você mesmo e na hora da revolta, procure um amigo de verdade e desabafe, grite na janela, soque almofadas, mas procure não fazer coisas que só vão te fazer sofrer mais e mais.
      Abraço forte,
      Adriana

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