O processo do luto e o DSM-V: psiquiatrização do luto

Segue artigo sobre tema importante e atual: a transformação do luto em doença. Não acredito nisso. Algumas vezes o luto pode se complicar sim, e temos fatores de risco claros e bem estudados para que isso aconteça. E para que muitas vezes, ao identificá-los a tempo, possamos evitar tal acontecimento (o luto virar um “luto patológico). Mas luto, a princípio, não é doença e nem pode virar.

O processo do luto e o DSM-V: “Psiquiatrização” do luto.
Rodrigo Luz & Adriana Thomaz

Consideramos a importância dos critérios diagnósticos para a identificação universal e para propor tratamento a pessoas com intenso sofrimento psíquico. Os critérios diagnósticos são necessários para produzir categorias clínicas, auxiliar na comunicação, pensar na possibilidade de tratamentos, indicar etiologias variadas e, além disso, oferecer espaço para o desenvolvimento de pesquisas científicas. Fato é que muitas das questões emergentes em relação aos diagnósticos de psiquiatria deriva da aplicação de modelos advindos da classificação médica de doenças físicas ao campo dos pensamentos, sentimentos e comportamentos, como fica implícito em termos como “sintomas” e “doenças mental” ou “doença psiquiátrica” (conforme o recente posicionamento da Divisão de Psicologia Clínica, da Sociedade Britânica de Psicologia, que pode ser consultada aqui: http://dcp.bps.org.uk/dcp/the_dcp/news/dcp-position-statement-on-classification.cfm). No entanto, a patologização generalizada da vida subjetiva tem um doloroso efeito colateral, uma vez que o sujeito, encolhido pela sua própria dor, não encontra espaço para expressar a natureza do seu sofrer. Por tentar inibir as dores vivenciadas no viver, os sujeitos acabam por inibir a riqueza do trabalho psíquico, que é fantasiar, elaborar, representar e conferir sentido à dor da finitude, do desamparo e da solidão. A vida não pode ser regida pela ideia de que há uma linearidade, marcada pela ausência de riscos e incertezas. Se as depressões são consideradas como um sinal de mal estar, o depressivo percebe-se como um sujeito que se retira da festa pela qual ele é insistentemente convidado. Sua vida psíquica empobrecida é um incômodo para os ditos normais, porque questiona os ditos instrumentos de produção de felicidade. Assim também os indivíduos enlutados pela morte dos seus entes queridos – não depressivos, porque o luto não é depressão – se sentem culpados por não se inserirem na “festa” e no mercado reinante da dita “felicidade”. Atualmente, questões associadas aos transtornos do humor emergem, sobretudo, com respeito à nova edição do DSM-V (2013), que oferece uma visão questionável acerca do processo de luto – caracterizando-o como um transtorno do humor, a partir de um período de duas semanas sem melhora significativa. Os principais teóricos do processo de luto (Parkes, 1998; Parkes, 2009; Bowlby, 2004; Worden, 2013) consideram que o luto não é uma doença, além de o considerarem como um processo muito singular, que não deve ser tratado como um Transtorno do Humor. Fundamentações teóricas como a Teoria do Apego (Bowlby, 2004), a Teoria da Transição Psicossocial (Parkes, 1998) e o Modelo Dual do Luto (Stroebe & Schut, 1999) são apresentadas para que os profissionais de saúde mental compreendam como as pessoas reagem à perda dos seus entes queridos. O luto não é um processo linear, ou seja, não é um conjunto de sintomas que surgem com a morte e vão desaparecendo com o tempo. Ao contrário, é um complexo processo de adaptação a uma nova realidade. Stroebe & Schut (1999) apresentaram o Modelo Dual do Luto e esclareceram que o processo de luto é marcado por uma intensa oscilação adaptativa: ora o sujeito precisará lidar com a realidade da perda e com os sentimentos e emoções que daí decorre, ora o sujeito precisará lidar com o reaprendizado do viver, a mudança das concepções e a reconstrução da vida. Esse processo não é linear e a pessoa pode oscilar várias vezes ao dia. Segundo esses autores, os problemas associados ao luto surgiriam quando a pessoa lidasse apenas com a realidade da perda e com os sentimentos que daí decorre ou se o indivíduo lidasse apenas com a reconstrução da sua vida e suprimisse a necessária elaboração dos sentimentos e pensamentos mais dolorosos acerca da morte e da perda. Segundo todos os autores destacados, o luto não é uma doença, e não deve ser medicalizado, salvo em casos que outros transtornos psiquiátricos graves estejam associados ao processo do luto, sendo necessária uma abordagem multiprofissional e interdisciplinar, em que os profissionais da saúde mental possam pensar se haverá ou não a necessidade de eventuais recursos farmacológicos para serem combinados aos recursos não farmacológicos, como a psicoterapia individual ou em grupo, os grupos de entre-ajuda, o acionamento de uma rede de apoio responsiva, a arte-terapia, entre outras abordagens de suporte validadas e descritas na literatura (Worden, 2013).
Referências Bibliográficas: PARKES, C. M. Luto: estudo sobre as perdas na vida adulta. São Paulo: Summus Editorial, 1998. PARKES, C. M. Amor e Perda: as raízes do luto e suas complicações. BOWLBY, J. Apego e perda: perda: tristeza e depressão. São Paulo: Martins Fontes, 2004. WORDEN, J. W. Aconselhamento no Luto e Terapia do Luto. São Paulo: Rocca, 2013. STROEBE, M. S., & SCHUT, H. The dual process model of coping with bereavement: Rationale and description. Death Studies, 1999, 23,197-224.

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Sobre adrianathomaz

Na vida: autenticidade e coerência íntima, amor, muito amor, fé e fotografia! Educação para a morte e o morrer. Terapia do Luto, Dor e Medicina Paliativa.
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2 respostas para O processo do luto e o DSM-V: psiquiatrização do luto

  1. claudiaghazi disse:

    Queridissima,embora nao pareça,nao a esquecerei nunca,voce ENTROU NO MEU CORAÇÃO PRA SEMPRE!

    Leio e releio seus artigos e agradeço por tudo…estou levando minha vida como posso mas sem grandes desesperos…embora “ele””,meu grande amigo,VICTOR,tenha se ido,ficou no meu coração para sempre,com muito,muito mais amor!

    Nao pude acompanhar voce com o grupo por causa material mas faço uma terapia com uma psicanalista espirita que vem me ajudando,claro que nao é com seu embasamento especial,espetacular,nem com o enfoque LUTO! …quem sabe um dia?Eu nao quero perder o contato, NEVER,com voce e gostaria muuito de conheceras Maes do lindo grupo que voce criou,FLOR DE LIZ,confesso que tenho uma tristezinha no fundo do meu coração pro isso tb! AMO-A sempre,com todo carinho fraterno e lhe desejo o melhor,voce merece! Se voce puder,quando se reunirem,me convide,gostaria muitode conhece-las a todas e poder trocar experiencias,com o maior prazer! Com o carinho de sempre,da sua sempre amiga,

    Claudia Ghazi. esse artigo fantastico é de muito tempo,nos anos 2013..tão especial quanto os outros,que guardo comigo,com muito amor!

    Date: Mon, 3 Jun 2013 10:20:31 +0000 To: ghaziteresa@hotmail.com.br

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